O capítulo sem fim da água, do barranco e do deslizamento

 Não é de hoje que sabemos bem sobre os lugares Brasil afora onde cai mais ou menos água do céu. Mesmo antes desse timaço de pessoas (dentre os quais cientistas de dados e climatologistas formados em sua maioria em universidades públicas brasileiras) e supercomputadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), conhecíamos os ciclos climáticos desde a Antiguidade; mais contemporaneamente a geomorfologia de áreas urbanas, rurais e as naturais enchentes como a pantaneira, entre outras marés deste país de praias, baías, enseadas, cavas e portos de um imenso litoral para o qual correm incontáveis veios de água.

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Digite a legenda da foto aqui SERGIO MARANHAO / AFP – 01/06/2022

Portanto, chamar de tragédia quedas de barreiras nas periferias de cidades de variados portes como visto há uma semana em Recife é um vício linguístico que devemos logo abandonar por respeito à inteligência coletiva e à memória das mais de 100 pessoas que lá morreram soterradas, fora as centenas que perderam seus parentes e seus poucos, porém seus, pertences, além das muitas memórias.

Tragédia serve para ilustrar o que não é esperado, o que não pode ser evitado, medido. Na ponta do exemplo, é como se uma fissura quilométrica e repentina aparecesse, em segundos, rachando qualquer pedaço de solo seja aqui ou em qualquer outro continente sem que sismógrafos ou demais máquinas a detectasse.

O que vimos e vemos, ciclicamente, é o drama, ou seja, o cenário que de antemão se (re)constitui assim que a natureza encontra, de volta, seu lugar de origem. E a água é mestra nisso. Ela, como substância, parece exalar a cada hidrogênio e oxigênio de suas moléculas uma inteligência inata com serventia infinita. Primordial ao ser humano em todas as áreas de atuação e de sobrevivência deste sobre a crosta terrestre e no espaço sideral, a água, como gostam de filosofar, corre. Pode empoçar, se vaporizar ou congelar-se, mas sua aptidão para a ‘corrida de fundo’ é implacável.

Quando ela assola um barranco que deveria conter apenas a sua vegetação, se este estiver numa condição precarizada por moradias irregulares em suas curvas de nível, descoberto de sua flora nativa ou desbastado por ação qualquer do homem, não há a menor dúvida de que ele se encharcará da água da chuva. Ela, ao penetrar em frestas grandes ou pequenas, acaba se acumulando metros abaixo da superfície e, obviamente, esse volume concentrado dela, numa determinada área, pesa ao se misturar à terra. A partir de um momento e tonelagem, esse amontoado não suporta mais o não escoamento dessas águas e se esvai pela força da gravidade, levando em seu caminho tudo com sua força ininterrupta e avassaladora.

Isso significa casas, pessoas, objetos e animais de quaisquer tamanhos. Tudo que fica na direção do deslizamento é empurrado para a parte mais baixa da região. Não é preciso ser engenheiro para saber as consequências disso.

Então, por que as pessoas ‘insistem ‘em morar nas encostas de morros sabendo que podem ser vítimas da trágica ação da natureza em mortífera parceria com o dramático descaso do homem? ou. Por que o poder público, este ser etéreo, pelo bem comum da coletividade não veta esse tipo de ocupação que urge principalmente nas médias e grandes cidades?

A resposta parece ser outra obviedade que todos os homens e mulheres públicos sabem, ou fingem que. Porque não são eles que, por falta absoluta de visão ou de opção, moram em casas à beira do precipício, feitas fora dos padrões de segurança com material inadequado desafiando ângulos, se esquivam de doenças pela falta de saneamento adequado, de balas perdidas, de bicas do tráfico, se deparam com ratos e água invadindo o barraco contaminando seus corpos ou levando pela enxurrada os móveis, colchões, roupas, documentos, fotos, lembranças e geladeiras.

Não falta informação. Carecem ações de estado. A capital pernambucana que ilustrou o drama até aqui contado, por exemplo, está quase no mesmo nível do mar e dentre suas congêneres nos estados é a mais vulnerável com relação às mudanças climáticas no Brasil, sendo a 16ª cidade do mundo nessa condição, segundo informa o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC).

Sabemos o que fazer. As autoridades que gerem os impostos e são as autorizadas a usarem o dinheiro público e coletivo para o bem-comum conhecem o justo caminho para que todos possam ter o direito, pagantes diretos ou indiretos de tributos, paz e segurança em seus lares. É um mínimo.

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