Nem gol do título da Champions muda o status de Vinicius Junior na Seleção de Tite. Para jogar, tem de se submeter a Neymar

São Paulo, Brasil

Com Neymar, o privilégio dentro do campo é dele. Vinicius Junior que se adapte

Com Neymar, o privilégio dentro do campo é dele. Vinicius Junior que se adapte Lucas Figueiredo/CBF

Demoraram 11 anos.

Mas já há um jogador brasileiro que é mais importante do que Neymar no cenário internacional.

Vinicius Junior.

Antes mesmo de marcar o gol que decidiu a Champions League para o Real Madrid, o atacante, de 21 anos, já era revenciado como o mais importante atleta fora do país.

Inclusive nos valores. Site especializado em transferências como Vinicius Junior ‘valendo’ 100 milhões de euros, cerca de R$ 507 milhões. E Neymar, decaindo, menos da metade do que foi comprado pelo PSG. Os 222 milhões de euros, cerca de R$ 1,1 bilhão, ficaram em 2017. O atacante de 30 anos vale ‘apenas’ 90 milhões de euros, cerca de R$ 456 milhões. 

Vinicius Junior já é uma realidade incontestável no Real Madrid de Carlo Ancelotti, quando tem o lado esquerdo de ataque todo para fazer o que quiser. Dar arrancadas, dribles, cortar para o meio, entrar na diagonal, como marcou o gol de sábado.

O problema de Vinicius Junior está na Seleção Brasileira.

Assim como Mano Menezes, Felipão e Dunga, Tite criou, ao longo dos anos, uma dependência inacreditável de Neymar.

E o atacante do PSG está mais do que acostumado a usufruir todos os privilégios que o treinador da Seleção reserva para ele. Desde ser o único jogador a instalar sua família no hotel do Brasil durante a Copa do Mundo, a cobrar todas as faltas e pênaltis que quiser. 

Mas principalmente jogar onde gosta. Anos atrás, quando tinha mais arranque, velocidade, capacidade de dribles, Neymar atuava exatamente na esquerda. Como Vinicius Junior faz. 

A partir de 2020, o técnico alemão Thomas Tuchel percebeu que, sem as arrancadas, o melhor seria fazer com que Neymar atuasse como meia do PSG. Sem a obrigação de marcar. Apenas construir as jogadas ofensivas de frente para os adversários. Com a liberdade total de cair na esquerda, onde está acostumado desde menino a atuar. E ficar pelo setor muitos minutos do jogo.

Desde de junho de 2016 é a mesma submissão de Tite a Neymar. Ninguém rompe essa dependência

Desde de junho de 2016 é a mesma submissão de Tite a Neymar. Ninguém rompe essa dependência AFP

Ele segue atuando assim com o argentino Mauricio Pochettino no time francês.

Depois do fiasco na Copa do Mundo na Rússia, Tite passou a utilizar Neymar da mesma maneira que Tuchel. O camisa dez joga como meia, com liberdade para ficar na esquerda.

Se Tite manter essa postura privilegiada a Neymar, vai roubar espaço importante, complicar a vida de Vinicius Junior na Seleção Brasileira. Porque o jogador do Real Madrid não terá outra saída a não ser revezar com o camisa 10 de Tite. Deixar o seu setor onde é especialista para atuar como improvisado como meia, onde não consegue render.

Não há outra solução.

Neymar sabe que, aos 30 anos, não tem a mesma condição física que Vinicius Junior, com 21 anos.

Mas o jogador do PSG aprendeu com Ronaldo Fenômeno, que o orientava nos primeiros dias de Seleção Brasileira, que o melhor jogador do país tem de agir como o ‘presidente’. Ou seja, o atleta a quem todos precisam estar bem, agradar. Até por ser o protegido do técnico. Mesmo não sendo necessariamente um líder dentro de campo. 

Vinicius Junior convocado contra a Argentina. Por conta de contusão de Roberto Firmino

Vinicius Junior convocado contra a Argentina. Por conta de contusão de Roberto Firmino CBF

Neymar exerce com a mesma firmeza que Ronaldo, que aprendeu com Romário, que a Seleção tem hierarquia. E que ele é o jogador que todos precisam respeitar. A submissão dos demais atletas a Neymar em cada convocação é absurda. Na Copa de 2018, Gabriel Jesus, por exemplo, se sacrificou, marcando a saída de bola adversária por ele e por Neymar.

Richarlison costuma fazer o mesmo que Gabriel Jesus.

Philippe Coutinho e Daniel Alves, especialistas em bolas paradas, deixam todas as cobranças para Neymar. Só quando ele não quiser bater que eles se candidatam. E não reclamam.

A estrutura da Seleção Brasileira já está montada há anos para esse privilégio para o ‘presidente’. Quem chega tem de se submeter. 

É o jogo. 

“O Ney é um grandíssimo jogador, que está há bastante tempo na Seleção e que faz de tudo para me ajudar dentro e fora de campo.

“(…) Estou aqui para seguir evoluindo e aprendendo com o Ney e com os outros atletas do elenco”, disse Vinicius Junior, em março, antes da partida contra o Chile, pelas Eliminatórias.

Na Seleção Brasileira, ele tem dez partidas e apenas um gol. 

Seu futebol é muito pior do que no Real Madrid.

E Neymar tem enorme influência por ocupar o seu espaço em campo.

Tite não pode e nem vai entrar em choque com o camisa 10 do PSG por conta do camisa 20 do Real Madrid.

O treinador da Seleção não se mostrou o maior fã de Vinicius Junior. Pelo contrário. Deixou claro, escancarado, em novembro de 2021, que preferia Antony. 

“Vinicius Junior, um grande jogador, com potencial de crescimento impressionante, num grande momento no clube, que concorre naqueles atletas, digamos assim, atacantes agressivos. Agudo, o ponta que vai para dentro. O desempenho e a oportunidade que Raphinha e Antony tiveram, foi um momento importante para a convocação, com todo o respeito nessa concorrência leal que a gente procura.”

Tite não havia convocado Vinicius Junior para a partida contra a Argentina, pelas Eliminatórias. Foi massacrado pela crítica. Só o chamou porque Roberto Firmino se contundiu. 

Seis meses depois, com Antony contundido, Vinicius Junior foi convocado para os amistosos contra a Coreia do Sul e Japão. Chega a Seul com status de homem que decidiu a Champions League.

Mas encontrará o ‘presidente’ Neymar e seus privilégios dentro e fora de campo.

Esperto, o camisa 10 da Seleção disse que, por ele, Vinicius Junior seria escolhido como o melhor do mundo em 2022. Situação que Neymar sabe que não irá ocorrer. O prêmio será de Benzema. Mas é uma atitude política importante, mostra que ele reverencia o companheiro de Brasil.

Só que não abrirá mão de jogar onde quer.

Nem Tite terá coragem de contrariá-lo. 

Impedir que ele ‘roube’ o setor onde Vinicius Junior joga melhor.

Vinicius Junior e Neymar. Todo o respeito, a reverência ao 'presidente' da Seleção

Vinicius Junior e Neymar. Todo o respeito, a reverência ao ‘presidente’ da Seleção Reprodução/Instagram

Essa é a situação.

Vinicius Junior que se contente em atuar pela esquerda quando Neymar deixar.

Não é de estranhar o fraco rendimento do atacante do Real Madrid na Seleção.

Basta acompanhar com atenção.

Tite privilegia Neymar e trava toda a explosão, o talento de Vinicius Junior.

Sem um pingo de constrangimento, dor na consciência.

Privilégio para jogar como quer é de Neymar.

E ponto final.

Não interessa o que acontece no Real Madrid.

Na Champions League.

É assim desde que Tite assumiu em junho de 2016…

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