O bairro do Bixiga, região central de São Paulo, tem lidado com uma nova demanda nos últimos meses: moradores, sambistas da tradicional escola Vai-Vai, historiadores e representantes de um movimento negro se organizam para preservar um sítio arqueológico e manter viva a memória encontrada durante a escavação da futura estação 14-Bis, da linha 6-Laranja.
A concessionária Linha Uni já encontrou nove sítios arqueológicos. Entre eles, um que abriga os objetos do Quilombo Saracura, embaixo da antiga quadra da escola de samba Vai-Vai, que foi desapropriada e derrubada para a construção da estação. De acordo com a Linha Uni, os achados consistem em material arqueológico oriundo de épocas mais recentes como louças, vidros e moedas.
Desde então, o movimento Saracura Vai-Vai promove ações para defender a preservação. Incluindo a protolocação de um pedido de audiência ao Ministério Público de São Paulo para que o órgão possa intervir no tema. Um dos pedidos do movimento é a suspensão das obras da futura estação 14 Bis, que o grupo quer batizar de Estação Saracura Vai-Vai.
“Se houver a tentativa do apagamento, faremos uma disputa em todas as áreas, jurídica, na academia, nos escritos, nas imagens e junto à população”, afirma Sérgio Pereira, membro do movimento Saracura Vai-Vai e professor de história.
Durante as escavações da linha 6-Laranja do metrô, foram encontrados nove sítios arqueológicos nos 15,3 quilômetros de construção. De acordo com a Linha Uni, foram encontrados objetos históricos nas estações Freguesia do Ó, Água Branca, Santa Marina I e II, SESC Pompeia, São Joaquim, Tietê, Sara de Souza e 14 Bis.
Dentre os materiais arqueológicos encontrados estão detritos de antigas fábricas, como cerâmica, vidro e louça. Além disso, foram encontrados objetos associados à linha de produção dessas fábricas, como moldes. Em outros sítios, também foram encontradas garrafas de bebidas, pratos e xícaras de louça, vasos de cerâmica entre outros, provavelmente descartados pelos antigos moradores.
O material coletado está sob guarda provisória da A Lasca, empresa especializada em arqueologia, pois está em processo de curadoria e análise, a partir da qual será produzido relatório complementar a ser entregue ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Após o término do estudo, os materiais coletados serão encaminhados ao Centro de Arqueologia de São Paulo, da Secretaria Municipal de Cultura, que no momento é a instituição de apoio desta pesquisa, autorizada pelo Iphan. O material resgatado na estação Santa Marina II é o único que já passou por todo o processo.
Para Sérgio Pereira, a importância de manter os achados do Quilombo Saracura é fazer com que as pessoas se sintam pertencentes ao lugar, pois “uma parcela significativa da população não conhece a própria história, por isso que, inclusive, às vezes tem dificuldade em pensar a história como algo importante”.
Em manifesto assinado por 148 organizações como blocos de carnaval e coletivos, além de 230 pessoas físicas, o movimento Saracura Vai-Vai afirma que o direito à cidade ultrapassa o acesso à mobilidade urbana colocado. “É fundamental que quem contribui imensamente com seu trabalho para construção da capital de São Paulo tenha sua história preservada”.
Marília Belmonte, historiadora e moradora do bairro do Bixiga, conta que manter os materiais arqueológicos também é uma questão afetiva. Segundo ela, é necessário conhecer essa história, que foi encoberta por um suposto progresso da cidade.
“Essa é a ideia de São Paulo, né? Essa de que é uma locomotiva que não pode parar, de que tudo é progresso, tudo tem que subir. Esses achados são um direito à cidade e à memória”, diz Marília.
Em nota, a concessionária Linha Uni diz que foi autorizada à continuidade da etapa construtiva, mas com paredes de contenção no local dos achados que, no caso, são necessárias como medida de segurança para que os arqueólogos possam iniciar a escavação e para que a continuidade das obras mantenha a integridade do patrimônio cultural.
Enquanto isso, o Metrô afirma que a linha 6-Laranja é uma PPP (Parceria Pública Privada) e que, portanto, a responsabilidade pela obra e pela operação é da iniciativa privada.
“Nós queremos pensar a vida de conjunto desse povo africano, é isso que nós queremos da construtora, nós queremos sentar numa mesa e conversar sobre todos esses aspectos”, finaliza Sérgio Pereira.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Fabíola Perez e Márcio Pinho

