Fetiche da valentia e do poder no gatilho de uma arma de fogo

Crianças aprendem a manusear AK-47 na Ucrânia: sofrimento dos baleadas ,

Crianças aprendem a manusear AK-47 na Ucrânia: sofrimento dos baleadas , DANIEL LEAL / AFP – 04.02.22

Muitos dos que escrevem periodicamente, seja para consumo próprio, dividir agruras cotidianas com interlocutores ou buscar sentido em tópicos inquietantes e movediços, reclamam para si quando lhes faltam justamente os temas, que parecem escapar aos neurônios quando eram para serem paridos por eles.

O que não dá para alegar, nos dias de hoje, é a ausência de assuntos que nos inquietam e nos fazem mover o cérebro atrás de explicações, nem que sejam parciais, mas o bastante para nos aquietar um pouco diante de uma interminável balbúrdia que insiste em nos ter por perto como companheira inseparável na vida.

O que está acontecendo no mundo, em matéria de extermínio de seres humanos por outros seres humanos, não é novo na raça nem tampouco sobrenatural. Há tempos que damos porradas uns nos outros, degolamos pescoços quando não os enforcamos, esfaqueamos vísceras abdominais e peitorais ao milhões, flechamos dorsos, torturamos, castramos, esquartejamos membros e envenenamos estômagos. Não é de hoje, e sabemos que isso não vai parar enquanto existirmos.

Do surgimento da pólvora ao fabrico de qualquer .40 ou Ak 47, também acrescentamos ao cardápio de formas de extermínio o tiro, que além de alvejar corpos humanos em suas cabeças e demais partes, servem para abater animais de quaisquer portes. Ah, claro, como esporte para treinar a mira também. Não falo do olímpico, que fique claro.

Pois bem. E chegamos ao assombro de usar armas de caça para caçar gente.

O jornalista britânico e o indigenista brasileiro, mesmo que fossem de outras nacionalidades, foram mortos no Brasil e se juntam a outras tantas pessoas que também foram assassinadas em circunstâncias análogas nestas terras descobertas em 1500 depois de Cristo – aquele que teria uma arma caso existisse em sua época tal artefato para sua ‘proteção’, segundo tese recém tornada pública.

Mas isso não é o pior, por incrível que pareça. Neste mesmo Brasil de teses e antíteses, a morte ‘matada’, ou seja, o assassinato de pessoas, infelizmente para a nossa pátria mãe gentil, normalizou-se.

Quando daqui lemos que em logradouros africanos desprovidos de estado e de infraestrutura física, institucional e social, uma aldeia qualquer fora invadida e crianças, mulheres, homens, adolescentes, homossexuais e idosos foram dizimados pelo apertar de um dedo em um gatilho de metralhadora e fuzil, dá logo na gente uma dor de empatia. Rapidamente imaginamos o sofrimento dessas pessoas que foram baleadas por armas, legalizadas ou não, pouco importa, e que morreram não no instante da carne perfurada pelo metal a mil por hora nela rasgando, mas segundos, minutos depois…o que viram, ouviram ou cheiraram nos instantes finais, o que a imaginação e a razão impuseram à rápida reflexão da vida que se esvaia além da incredulidade da despedida precoce dela, do retrospecto, da dor da dilaceração do tecido, da clemência a qualquer deus para que não as levassem…

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