“Simplesmente deram uma rasteira em mim e puxaram minha bolsa. Eu estava caída, era só eles irem embora, só que não era o bastante, e começaram a me chutar”, esse é o relato da agressão que a designer Yakari Camada sofreu dentro da estação Palmeiras-Barra Funda, da linha 3-Vermelha do Metrô de São Paulo, por adolescentes.
O relato, compartilhado em uma rede social, gerou mais de 2 mil comentários de internautas revoltados com a insegurança. Alguns usuários chegaram a escrever que também foram vítimas de furtos no local. “Trabalho próximo à estação. Nós estamos sofrendo com esses assaltos. Várias vezes pedimos socorro para a polícia e guardas do Metrô, mas não resolvem nada”, afirma Samanta Farias.
Um segurança que trabalha na linha 3-Vermelha e preferiu não ser identificado afirmou ao R7 que roubos e furtos fazem parte do cotidiano, especialmente nas estações Anhangabaú e na Palmeiras-Barra Funda. “São meninos, menores de idade, que agem em grupos. Normalmente eles ficam nas rampas, onde a visão dos seguranças e as imagens das câmeras ficam encobertas. Nós corremos atrás deles, mas é muito difícil pegar porque somos poucos”, explicou. Segundo ele, são poucas as ações integradas.
Pessoas que frequentam o terminal relatam roubos, entre outros locais, em uma rampa que liga a parte central do complexo a uma via inferior, onde passam ônibus municipais. O local é utilizado por passageiros desses ônibus e por quem caminha em direção ao trecho do bairro da Barra Funda mais próximo ao viaduto Pacaembu. “Ao sair da rampa, já na parte inferior, um grupo veio em minha direção e eu seria assaltada se um homem não tivesse se aproximado e fingido que estava comigo”, afirmou uma jornalista que trabalha na região.
A rampa, repleta de pichações e estruturas de acrílico quebradas, não conta com seguranças. Segundo o Metrô, a responsabilidade por essa área é da Socicam, que administra o terminal rodoviário da Barra Funda. Procurada, a Socicam não se manifestou sobre a insegurança no local.
Além dos roubos cometidos por, na maioria, adolescentes, as agressões são comuns entre os relatos de mulheres. A estudante Natany de Moraes, de 31 anos, disse que quase foi assaltada no feriado de Corpus Christi, também na estação da Barra Funda, mas quando os suspeitos notaram que ela estava acompanhada, desistiram. “Meus amigos estavam atrás de mim, mas eles acharam que eu estava sozinha. Lá [estação] tem muita ocorrência de arrastões, então tem que ficar de olho aberto, porque os seguranças simplesmente não fazem nada”.
O segurança do Metrô, entrevistado sob a condição de anonimato pela reportagem, diz que o problema é a falta de equipes de segurança nas estações. Segundo ele, quando há jogo de futebol e os usuários utilizam determinadas estações, para as quais os seguranças são encaminhados, a vigilância se torna mais restrita nas demais.
Passageiros de outras estações também relatam episódios de roubo e furto. Ana Beatriz Costa afirma que no último dia de aula da faculdade voltava para casa e, na estação Belém, presenciou três meninos abordando uma mulher. Segundo a estudante, um deles segurou os braços das vítimas, outro pegou a bolsa, e o terceiro revistou os bolsos da calça. Em seguida, fugiram correndo.
De acordo com o advogado e presidente da Comissão Especial de Adoção e Direito à Convivência Familiar de Crianças e Adolescentes da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), Ariel de Castro Alves, “há um aumento da população desses jovens nas ruas de São Paulo e alguns sobrevivem como pedintes, em situações de trabalho infantil ou cometendo furtos e roubos”, disse.
Segundo o advogado, a primeira fase de um Censo realizado pela prefeitura de São Paulo revelou que crianças e adolescentes em situação de rua se concentram em mais de 520 pontos da capital, sendo possivelmente as regiões mais afetadas.
Se flagrados, esses jovens podem receber diversos tipos de penas. “Adolescentes com mais de 12 anos só podem ser apreendidos em crimes com violência ou grave ameaça. Em furtos, pegos em flagrante, são levados pra delegacia e liberados com o comparecimento dos pais ou responsáveis. Em roubos, pegos em flagrante, podem ficar detidos e são encaminhados para a Fundação Casa”, explicou Alves.
Os jovens podem responder a processos nas varas da infância e juventude ou receber medida socioeducativa de liberdade assistida e prestação de serviços à comunidade.
Segundo dados da Fundação Casa, divulgados na quarta-feira (29) e enviados ao R7, existem 4.765 jovens em atendimento em 116 centros socioeducativos localizados em 46 cidades do Estado de São Paulo. Desses, 1.569 foram apreendidos por roubo qualificado (32,93%), 178 por roubo simples (3,74%) e 122 por furto qualificado (2,56%).
O Metrô de São Paulo afirmou que vai analisar as imagens do circuito interno de monitoramento para colaborar com a averiguação dos casos. “A Companhia mantém agentes de segurança pela estação, que realizam rondas constantes. É importante que os passageiros comuniquem todos os casos a um funcionário para a adoção de rápidas medidas”, afirmou o Metrô.
A Socicam, empresa que administra o serviço de transporte rodoviário presente também no terminal da Barra Funda, foi procurada pelo R7 para comentar o tema, mas não se manifestou. A empresa, segundo o Metrô, é responsável pela rampa próxima ao terminal rodoviário e que dá acesso à região da rua da Várzea. A rampa é um dos pontos de assaltos frequentes.
A SPTrans, responsável pelo serviço de ônibus municipal, afirmou que não tem responsabilidade sobre a administração do terminal Barra Funda.
Questionada, a Secretaria da Segurança Pública não comentou especificamente sobre ações no entorno das estações Anhangabaú e Barra Funda. A pasta afirmou que, para combater crimes patrimoniais vem realizando desde maio a Operação Sufoco.
“Até o momento cerca de 6,5 mil pessoas foram detidas e 366 armas de fogo ilegais retiradas das ruas. Também foram recolhidos simulacros de armas, cartões bancários, máquinas de cartão, celulares e carcaças de celulares. A Operação Mobile também é desencadeada para combater roubos e furtos de celulares. Nas áreas da 1ª e 3ª seccional, responsável pelo Anhangabaú e pela Barra Funda, respectivamente, 1.947 celulares foram apreendidos e 15 pessoas presas somente no mês passado.
* Sob supervisão de Fabíola Perez e Márcio Pinho
* Com a colaboração de Raphael Hakime

