Câmara de Lisboa recusa transfobia ou discriminação em peça de teatro

Esse voto foi apresentado pelo vereador da Cultura, Diogo Moura (CDS-PP), na reunião pública da câmara, em sequência do protesto que aconteceu na quinta-feira à noite, quando a atriz e performer travesti Keyla Brasil, com gritos de “transfake” e “fora do palco”, saltou da plateia para o palco do Teatro São Luiz, gerido pelo município, interrompendo a peça “Tudo sobre a minha mãe”.

Considerando que “a acusação de transfobia ou discriminação é profundamente injusta”, o voto de solidariedade da Câmara de Lisboa reconhece a todos os cidadãos o direito de manifestação, “entendendo, no entanto, que essa liberdade não pode pôr em causa a liberdade de criação artística, a liberdade de escolha e de acesso à profissão, o direito ao trabalho e o direito à fruição cultural”.

Entre os 17 membros da câmara, o voto foi viabilizado com três votos contra – um do BE, um do Livre e um da vereadora Paula Marques (do Cidadãos Por Lisboa, eleita pela coligação PS/Livre) -, sete abstenções – quatro do PS, duas do PCP e uma da independente Floresbela Pinto (do Cidadãos Por Lisboa, eleita pela coligação PS/Livre) – e os votos favoráveis dos sete eleitos da coligação “Novos Tempos” PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança).

Justificando o voto contra, a vereadora do BE, Beatriz Gomes Dias, manifestou solidariedade com as pessoas transexuais, que sofrem de exclusão, violência e falta de oportunidades no mercado de trabalho, e a eleita Paula Marques disse entender o protesto pela representatividade na ocupação do espaço público.

A vereadora do PS Cátia Rosas disse que o tema “é um pouco complexo” e “é difícil ter conclusões tão simples”, enquanto a vereadora do PCP Ana Jara realçou que “este episódio colocou no debate público um problema que não pode ser ignorado: a falta de investimento na cultura e a falta de acesso de todas e todos os trabalhadores artísticos ao trabalho”.

Subscrito pelos eleitos da coligação “Novos Tempos”, o voto aprovado manifesta solidariedade “com todos os profissionais do teatro, nomeadamente os responsáveis pela produção, encenação e os mais diretamente ligados à arte da representação, reconhecendo-lhes a liberdade de criação artística, a liberdade de escolha e de acesso à profissão, o direito ao trabalho, e com o público, que tem o direito à fruição cultural”.

Com este voto, a câmara refuta “em absoluto a acusação de que a peça ‘Tudo Sobre a Minha Mãe’, com o seu elenco inicial, constitui qualquer gesto discriminatório, bem como lamenta o ato intempestivo de interrupção da representação, ocorrida no passado dia 19 de janeiro, no Teatro São Luiz”.

A peça “Tudo Sobre a Minha Mãe”, com texto de Samuel Adamson, a partir do filme de Pedro Almodôvar com o mesmo título, e encenação de Daniel Gorjão, uma coprodução Teatro do Vão, Rivoli Teatro Municipal do Porto e São Luiz Teatro Municipal, esteve em cena no Teatro São Luiz, desde 11 janeiro e até ao passado domingo.

Na sequência do protesto na quinta-feira, o encenador Daniel Gorjão anunciou a integração no elenco da atriz trans Maria João Vaz para interpretar o papel de Lola na peça “Tudo sobre a minha mãe”.

O elenco já incluía a atriz trans Gaya de Medeiros, no desempenho da personagem Agrado. Em causa, porém, estava o papel de Lola, mulher trans, ex-marido da protagonista.

Após o protesto, Maria João Vaz foi substituir André Patrício, ator cisgénero que aparecia quase no final na pele de Lola.

De 27 a 29 de janeiro, a peça estará no Teatro Municipal do Porto – Campo Alegre.

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