Um ano após a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, a favela do Jacarezinho ainda vive o clima de medo após uma ocupação policial para ocupar território. Lançado em janeiro pelo governo do estado, o programa “Cidade Integrada” tem como objetivo de combater a região do tráfico de drogas e melhorar os serviços sociais.
A presença da polícia, porém, está longe de tranquilizar os moradores da favela, onde vivem cerca de 80.000 pessoas. “Todo mundo está com medo. O fato de a polícia estar aqui o tempo todo não nos dá uma sensação de segurança, muito pelo contrário”, diz um lojista de 31 anos que pediu para não ser identificado por medo de represálias.
Dois caminhões blindados da polícia estão estacionados perto da loja do comerciante. Oficiais fortemente armados saem para patrulhar a área. Os pedestres evitam olhar nos olhos da polícia enquanto caminham pelas vielas estreitas, atravessadas por cabos elétricos que às vezes ficam pendurados no chão.
“Desde o início da ‘Cidade Integrada’, temos visto tiroteios quase diariamente, sem aviso prévio”, lamenta Pedro Paulo da Silva, pesquisador de segurança da ONG Labjaca, que atua no bairro. No Jacarezinho, cada ação policial faz a região reviver as memórias do 6 de maio de 2021, quando 28 homens morreram.
Corpos nos becos, poças de sangue nos terraços ou nas salas… as cenas que assustaram o bairro após a operação permanecem intactas na memória de muitos.
Na sexta-feira, um ano após o massacre, cem pessoas fizeram uma manifestação pelas ruas da favela até um memorial criado em homenagem às vítimas: 28 placas em uma parede azul com os nomes dos mortos. “Polícia assassina!”, gritaram os manifestantes, mesmo quando se depararam com uma dupla de agentes armados com fuzis.
“É um sentimento de tristeza, mas sobretudo de injustiça. Muitos outros morreram depois deles e as mortes não vão parar”, disse Taciana Barbosa, 19 anos, amiga de infância de dois jovens que morreram na operação.
Até o momento, dois policiais foram denunciados pela promotoria e outros dois estão sendo processados na Justiça pela participação na operação. Mas dez das treze investigações iniciadas foram arquivadas.
“Enquanto perdurar a impunidade, o contato com a polícia será sempre marcado por traumas”, diz Guilherme Pimentel, consultor da Defensoria Pública, que presta assistência jurídica gratuita às famílias.
Outro problema recorrente que gerou denúncias na Defensoria Pública é a invasão e saques de casas cometidos pela polícia. “Quando cheguei em minha casa, a porta estava aberta. Eles têm chave mestra e, quando não funcionam, arrombam a porta”, diz Thiago Baia, 39 anos, que dirige uma associação cultural em Jacarezinho.
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“Eles vasculharam tudo em busca de objetos de valor. Tive sorte que não roubaram minha televisão. Entraram com um cachorro, havia excremento. Desde então, todas as noites antes de dormir tenho crises de ansiedade”, acrescenta.
Além de aumentar a presença policial, o programa ‘Cidade Integrada’ prometia melhorar o atendimento à população. O governo do estado do Rio afirma ter implementado programas nos últimos meses, como a capacitação profissional de cerca de 1.400 mulheres chefes de família.
Também abriram cursos de ginástica, zumba e um serviço de registro civil que permitiu a muitos moradores obter “sua primeira carteira de identidade”, segundo o governador Cláudio Castro. “Toda vez que as autoridades lançam um novo programa, o problema é o mesmo: não há diálogo com a população”, lamenta.

